A minha relação positiva com as favas começou apenas em idade adulta. Recordo-me de, chegada a primavera, elas começarem a surgir em várias refeições lá em casa e de, na mesma medida, se iniciarem algumas birras e amuos!

Porém, com o passar dos anos e a descoberta de outras formas de as preparar, também o meu apreço por esta leguminosa sofreu mudanças radicais. De mal amadas, passaram a ser muito apreciadas. E ainda bem, porque passar ao lado de uma tenras favas é falhar uma experiência gastronómica bem interessante. E por isso, o historial do blog mostra de forma bem expressiva como elas não falham na minha cozinha na sua época. Aqui, aqui, aqui, aqui, e ainda aqui  para não exagerar!

Favas

Mas reportemo-nos a alguns factos históricos:

Durante a Antiguidade Clássica, a fava esteve na base da alimentação romana, sendo cultivada de forma intensiva para servir a alimentação de todos, sobretudo dos mais desfavorecidos. A sua combinação com presunto é a matriz da alimentação dos pobres, dos trabalhadores braçais, dos camponeses e gladiadores. Em concreto, é o alimento de todos os que necessitam de robustez física no seu quotidiano. As favas são comidas cruas, cozidas, fritas ou ainda transformadas em farinha (lomentum) para fazer pão. A variedade de favas é considerável, mas, a fava de Baias cultivada na zona de Nápoles e mencionada por Apício, é a mais apreciada e de melhor categoria. Por cá, e na cozinha atual, é fácil encontrá-las na mesa, com o presunto, à semelhança do que faziam os antigos romanos, e com ovos escalfados. Porém, nesta receita, apesar do remate com ovos, não constam vestígios do suíno.

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A proposta é do francês Lucas Rigaud, do seu livro Cozinheiro Moderno ou a Nova Arte de Cozinha, editado em Portugal em 1780. A receita foi uma das escolhidas para integrar a seleção de cinquenta que apresentei no meu livro “Cinco Séculos à Mesa”.

Um francês a propor umas Favas à Portuguesa!

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Ingredientes: 1 kg de favas (com casca); 4 olhos de alface; 100 ml de azeite; sal q.b.; pimenta q.b.; 4 chalotas; 1 ramo de coentros; açúcar q.b.; 4 ovos.

Preparação:

Ferver as favas com os olhos de alface em água. Escorrer e deitar num tacho com azeite temperado com sal, pimenta, chalotas e coentros picados. Refogar ligeiramente e acrescentar um pouco de água quente. Deixar ferver até reduzir o molho e estarem cozidas. Deitar num prato com açúcar e ovos escalfados em cima.

Serve 4.

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