lazarim4

Centro Interpretativo da Máscara Ibérica – Lazarim

ENTRUDO

Quem come até se fartar cedo vem a jejuar

Festeja-se o Entrudo nos três dias que antecipam o período Quaresmal. Inicia-se na Quarta-Feira de Cinzas e prolonga-se até à Páscoa. Contudo, o período do Entrudo é bastante mais extenso pois, na verdade, logo depois do Dia de Reis começam essas preparações carnavalescas, faustosas e que se traduzem nos Domingos Gordos.

lazarim3

Lazarim

Presume-se que o Entrudo já seja comemorado na Península Ibérica antes do Cristianismo como rituais relacionados com a fertilidade e a celebração da entrada na primavera. Ao longo dos tempos esta celebração vai-se revestindo de outras simbologias, nunca se afastado, porém, de uma luta conotado como «bom combate». Não obstante, a Igreja Católica aprimora essa relação do Mal com o Bem, no justo combate do Entrudo com a Quaresma. Os excessos carnavalescos fenecem perante os jejuns e abstinências quaresmais.

Centro Interpretativo da Máscara Ibérica – Lazarim

O incontornável dramaturgo Gil Vicente remete para a temática na sua obra Farsa dos Físicos, relacionando-a com a alimentação gorda do Carnaval, os jejuns da Quaresma e os rituais do calendário religioso e profano. Os quatro humores são representados por quatro físicos que procuram tratar o clérigo João Calado, personagem principal, enamorado por Blanca Denisa. Este amor sem correspondência provoca-lhe febres cuja cura depende da comida magra dos físicos ou da comida gorda da alcoviteira Brásia Dias, ou seja, a luta simbólica entre a Quaresma e o Carnaval.

lazarim2

Lazarim

lazarim.JPG

Lazarim

O Entrudo é cada vez mais o Carnaval e a sua relação histórica com os desregramentos que antecedem a Quaresma esbatem-se perante a profusão de importações de outros «carnavais». Contudo, permanece um certo vínculo a práticas comensais enraizadas nas populações, nomeadamente os pratos à base na matança do porco, e ainda as feijoadas e os cozidos.

Na freguesia figueirense Borda do Campo, a tradição mandava que se comesse galinha no dia de Entrudo. Depois desse repasto, espetava-se um garfo na carne e não mais se comia carne. O que sobrava desse dia de Entrudo era colocado na salgadeira e esta pregava-se com pregos até ao final da Quaresma. O Domingo Gordo é, juntamente com a Terça-Feira de Carnaval, o dia de excessos à mesa. Segundo dizem as mulheres da Borda do Campo no Domingo Gordo não comas horto que está o Senhor morto.

empadas

Estes dias de Entrudo foram passados entre Lazarim e a minha cozinha. Nela, as carnes da matança não têm grande expressão mas, numa tentativa de me aproximar dos sabores desta época, abordei duas receitas, uma tradicional, outra com um toque mais atual. Estas empadas foram inspiradas numa receita que vi recentemente na revista do Lidl.

empadas2

Empadas de alheira com maçã assada

Para 7 empadas, utilizei uma base de massa folhada, uma alheira, uma maçã assada e uma gema de ovo. Estendi a massa e recortei a massa de forma a forrar as formas, reservando a restante massa para tampas das empadas. Numa frigideira coloquei o recheio da alheira e o puré da maçã assada. Envolvi bem para obter uma massa homogénea. Posteriormente, coloquei o recheio nas formas, tapei com a massa folhada e pincelei com a gema de ovo. Levei ao forno pré-aquecido a 180º cerca de 20 minutos.

empadas4

No livro Festas e Comeres do Povo Português, Maria de Lourdes Modesto refere as comidas associadas aos festejos do entrudo. No que respeita às sobremesas, destaca as filhoses, de resto, em algumas terras designa-se o Sábado Gordo por Sábado Filhoeiro. Mas lembra ainda as azevias, boleimas, nogados e coscorões no Alentejo, os bolinhos no Algarve e as malassadas nos Açores.

azevias

Aventurei-me pelas azevias que há muito tinha vontade de experimentar. Também são comuns no Natal em Portalegre, no S.joão em Beja e em Évora pelo Carnaval são alvo de brincadeiras. Costuma dar-se aos amigos recheadas com algodão, ou então com o recehio fortemente condimentado com piri piri ou pimenta!

Grão de bico é sempre uma garantia de sucesso na nossa cozinha. Assim, e com a ajuda de mãos pequeninas, fizemos massa, esticámos, preparámos recheio e fritámos. Rendeu 25 unidades e seguimos a receita da Maria de Lourdes Modesto.

azevias3

Azevias, Festas e Comeres do Povo Português, Maria de Lourdes Modesto, Nuno Praça, Editorial Verbo, 1999.

Para a massa: 500 g de farinha; 90 g de banha; 1 colher de sopa de azeite; água morna (cerca de 1 chávena); 1/2 colher de café de sal.

Para o recheio: 500 g de grão de bico; 500 g de açúcar; raspa de casca de 2 limões; 8 gemas de ovo.

Preparação:

Peneirar a farinha e juntar a banha e o azeite. Misturar tudo com a ponta dos dedos. Adicionar água morna temperada com sal aos poucos e trabalhar a massa energicamente. Deixar repousar tapada enquanto se prepara o recheio. Depois de cozido, retirar a pele ao grão e reduzir a puré. Levar o açúcar ao lume com um pouco de água e deixar ferver até atingir o ponto de espadana (cerca de 170º). Juntar o puré e ir mexendo até formar o ponto de estrada no fundo do tacho. Acrescentar a raspa de limão e as gemas e levar novamente ao lume, desta vez brando para cozer a gemas. Deixar arrefecer. Estender a massa bastante fica e colocar pequenas colheres de recheio e tapar com massa. Depois cortar em forma de meias luas como os rissóis. Levar a fritar em óleo ou azeite bem quente. Deixar a escorrer em papel de cozinha e depois polvilhar com açúcar e canela.

azevias4