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Esta foi a fotografia que fiz para a capa do livro «A Nossa Mesa: receituário gastronómico da Figueira da Foz». Opções editoriais acabaram por ditar que ficasse na «gaveta». Contudo, continuo a considerar que teria sido uma capa reveladora do conteúdo do livro. Nesta «natureza-morta» estão representados diversos alimentos e produtos que constituem a base da alimentação figueirense.

O tema das «naturezas-mortas» interessa-me bastante e tenho realizado alguma investigação sobre essa matéria. Hoje, deixo algumas reflexões sobre a temática, para os que se interessam pela vida que ainda existe nas naturezas-mortas! O texto é constituído por alguns excertos da comunicação que apresentei neste colóquio.

A tradição das representações iconográficas com motivos alimentares e outros elementos inanimados tem uma origem remota que poderemos situar ainda na pré-história. Contudo, as referências anteriores ao conceito moderno de naturezas-mortas são relativas à Antiguidade Clássica. A principal fonte literária que nos dá essa indicação é a História Natural de Plínio, indicando obras em que a capacidade de imitação da natureza são absolutamente fascinantes. 

Os mosaicos antigos do mundo grego e romano aproximam-se do que hoje convencionalmente designamos por naturezas-mortas por terem representações de comida e de bebidas. Usualmente, ostentam aves, ovos, frutas e vegetais. Se é mais vulgar a figuração de animais mortos, mariscos, vegetais e frutas preparados para serem consumidos, não é menos comum o aparecimento de animais ainda vivos, até em posições de ataque, como é o caso do emblema na Casa del Fauno onde um gato ataca um dos pássaros representados. Alguns elementos típicos contidos em fundos geométricos são os vegetais – alcachofras, espargos e pepinos – frutas, dentro de cestos ou empilhadas, bem como aves, peixe e mariscos. Os animais surgem maioritariamente vivos, em completa liberdade, embora ocasionalmente sejam representados amarrados, mortos e preparados para a mesa. Também os peixes ocorrem, no seu habit natural, enfrentando as ondas do mar.

Durante um tempo significativo, os elementos de naturezas-mortas constituem apenas um complemento em narrativas religiosas com figuras humanas. Enquanto decorre a centúria de seiscentos, a imagética religiosa tem um papel central na produção pictórica da Europa, nomeadamente nos países mais a sul. Contudo, a pintura foi sempre uma resposta à necessidade de imitar a Natureza. Caravaggio, com a sua única natureza-morta conhecida – Cesto de fruta, c. 1595-1598 – determina o princípio fundamental deste género: o naturalismo. É, aliás, uma preocupação comum aos pintores deste tema durante o seu período de evolução.

Para além do virtuosismo que os pintores de naturezas-mortas pretendem transmitir com as suas obras, estas concorrem para a fixação de alegorias e simbolismos, ou permitem ao artista explorar e apurar técnicas de estudos. Além do mais óbvio interesse por estas temáticas da Natureza, é igualmente comum o fascínio com a inclusão de alimentos já preparados, ou em preparação, pela capacidade de transmissão de sensações que apelam aos diferentes sentidos, nomeadamente o paladar, olfacto e mesmo o tato. Por essa razão, não é estranho verificar a frequência das cenas de cozinha com figuras nas produções de seiscentos, evoluindo para as autónomas representações de mesas, sejam elas bancas de cozinha, mesas de aparato ou banquete, ou de forma mais simples, representando refeições ligeiras. A carne – caça e não só –, peixe, mariscos, vegetais, frutas, e também os queijos e doces, coincidem de forma significativa nestas figurações, não obstante o seu consumo não ser transversal a todos os grupos sociais. Importa, no entanto, salientar a dimensão social destas representações. A refeição tem uma componente de sociabilidade a que estas representações não são alheias. A natureza-morta presta-se, em muitas ocasiões, a decorar as salas de refeições. A figuração de alimentos em preparação, ou eventualmente já preparados, constituem um estímulo para os sentidos, apelam ao consumo, ao desejo. Embora não seja de todo exato enunciar o intuito de consumo exagerado, ou em oposição a isso, uma ideia moralista e religiosa condenatória dessas práticas.

A representação de animais mortos nas naturezas-mortas será a sinopse do que é essa pintura de coisas inanimadas ou imóveis. Todavia, a representação de animais vivos é também admitida neste género. Se, como já referimos, as figurações de alimentos não confecionados, como peixe e carne, aparecem na escala hierárquica na posição mais inferior, a sua produção acontece em grande escala e com resultados absolutamente impressionantes. As naturezas-mortas com peças de caça atingem valores elevados. Eventualmente, isso deve-se ao facto de a caça ser uma prática aristocrata. O mesmo não se verifica com as representações de peixes que, invariavelmente, se situam muito abaixo na escala de valores comerciais. As naturezas-mortas com cenas de caça, ressurgimento da Antiguidade Clássica, são um caso muito concreto da capacidade técnica dos artistas. As texturas tão particulares de pêlos e penas provocam, mais do que qualquer outro elemento, esse desejo de tocar, neste caso, nos animais representados.