No princípio do ano, numa das minhas visitas semanais ao mercado municipal, a minha camponesa, enchia-me um saco com limões, num dos seus gestos constantes de generosidade. Fico sempre atrapalhada e tento contestar, mas já entendi que a minha recusa, além de não ser atendida, pode ser quase ofensiva. Por isso aceito, mas lá vou dizendo: «isso é demais D. Maria!»

Ao que ela responde, com o permanente humor: «de maio são as favas, filha!»

E de facto são! Ou foram hoje, no 1º de maio. Ainda que compradas ontem, em abril, à minha estimada camponesa. Que logo me alertou: «vai melhor servida com o saquinho das descascadas. Pesam o mesmo e não deita nada fora». Até nisso é generosa. Mais quantidade e menos trabalho.

As favas a pedirem soluções. Um caminho. Muitas direções e hipóteses. Logo à partida um creme. Que tem  vindo a ser adiado. Mas afinal havia sopa de nabiças, feita na véspera e suficiente. A mais comum das hipóteses (estufadas com chouriço) cá por casa não reúne a devida devoção. Uma pasta para barrar no pão. Sim, isso mesmo. Já que ontem também chegaram cá a casa dois magníficos pães rústicos de Vale de Gaviões. E se eu gosto de pão alentejano!

Como estamos sempre a sofrer influências ou inspirações, lá peguei numa sugestão do Pratos e Travessas e adaptei às minhas preferências e às ervas que rebentam nos meus vasos. A hortelã! A mais resistente de todas!

Às fatias de pão torrado, acrescentei mostarda Dijon com grãos e a pasta feita com as favas. E devo dizer que só lamento ter feito pouca quantidade. Serviu apenas de entrada ao almoço, mas poderia ser uma refeição. Leve, é certo, mas surpreendentemente intensa!

O que usei:

Fatias de pão alentejano torrado
200 g de favas descascadas
2  dentes de alho
Azeite  a gosto
2 colheres de chá de coentros em pó
Folhinhas de hortelã
Flor de sal a gosto
Pimenta rosa moída
Mostarda de dijon

1 colher de sopa de gengibre ralado

Como preparei:

Cozi as favas em água e sal até ficarem tenras, cerca de 7 mintos.
Escorri-as e passei-as por água fria, para manter a cor.
Descasquei as favas. Numa taça juntei-as com azeite a gosto,os alhos ralados, o gengibre igualmente ralado e os coentros em pó.
Temperei a gosto com sal e pimenta. Apesar das favas terem sido temperadas na cozedura, talvez precisem de mais um pouco de sal depois de misturadas com os restantes ingredientes.
Pisei tudo num almofariz, de forma ficar com pedaços inteiros de favas.
Barrei as fatias de pão torrado com uma fina camada de mostarda de dijon e por cima espalhei a mistura temperada de favas.

Depois foi o espanto. A descoberta de uma coisa tão boa. E pensar que na infância não gostava nada de favas. Bem sei que é lugar comum dizer isto. Mas é tão verdade! Estou certa que com esta pasta de favas até o meu amigo P. se rende a elas. Pois são, juntamente com as tripas, o único alimento de que não gosta! Vou tentar!